
Depois de dois dias assim a vida muda a sua própria orientação e já ninguém parece ser quem antes fora ou parecera ser para mim. Aos meus olhos os segredos vê(e)m ao de cima e a verdade na verdade nunca o foi, em parte para minha confusão, em parte para minha desilusão. Deitada na relva fria mas confortável olho para a imensidão do escuro do céu desta noite, sim porque amanhã não será o mesmo, o céu muda todas as noites e todos os dias para quem não sabe! Muda o céu bem como a minha disposição. Imagino cada estrela como sendo um momento que eu já passei e com quem o passei e a que mais brilha é a que mais recordações deixou e deixa. De repente todas essas memórias atingem-me em passagens de flashes, ou como as páginas de um livro que o próprio vento desfolha sem ajuda de ninguém: estou deitada na toalha mas sinto a textura de areia quente debaixo de mim. O calor é demasiado e pela minha pele escorre o suor como se fossem gotas de chuva que formavam uma poça no fundo das costas. Olho para o lado e estás tu, deitado na mesma posição que eu e nos teus óculos de sol vejo o meu reflexo convexo. Ao veres os meus olhos brilhantes pelo sol e por ti (lembro-me eu) sorriste para mim, mas os teus olhos ficaram por decifrar por detras das lentes pretas.--->Agora vejo uma imagem minha num carro a percorrer uma longa e larga auto-estrada rodeada apenas por campos desertos de milho e trigo. Levo as pernas de fora da janela e vou sentada no banco da frente, enquanto que olho para as placas que marcam agora a divisória da fronteira entre espanha e portugal. Olho para o telemóvel e este acabara naquele momento de passar a ter rede portuguesa. Carrego enviar e segue para ti a mensagem " Xeguei agr de espanha! bjok@s".---> A imagem muda novamente e agora estou num comboio e ninguém está sentado perto de mim. No meu pescoço está uma marca recente de um chupão e o meu coração bate violentamente contra as costelas. Olho para o bilhete que levo na mão e está escrito " Porto-Santo Tirso, ida e volta". Olhei para o ecrã de informações do comboio, era dia 05-05-05 e 13:00.----> Agora vou numa camioneta e sinto o corpo encostado à janela a balouçar com o movimento desta. O meu olhar está preso nas imagens que vão passando do lugar que mais paz me traz no mundo e a sensação de que mais uma vez estar a sair de lá apertava-me seriamente o peito. No ouvido ia entrando a "paciência" de mafalda veiga e joão pedro pais.---> Estou prestes a sair do auditório enorme que se encontra atrás de mim e de repente paro com a mão na porta. Viro de novo o olhar para o palco, já estava tudo escuro e ninguem andava por lá. Comecei a descer e quando cheguei perto do palco não subi as escadas todas, apenas 2 lances e sentei-me, encostada à parede. Do outro lado, por trás das cortinas pretas e pesadas que levavam aos bastidores dos artistas e dos instrumentos, soltava-se a música por entre as teclas que sentiam os teus dedos tocarem-lhes. Nesse momento pensei levantar-me para me ir sentar ao teu lado mas a razão foi maior e deixei-me ficar sentada ali, no escuro sem te ver, mas a sentir-te mais perto de mim do que nunca.----> Estou sentada no autocarro e já é de noite. Ao meu lado está a minha afilhada e um rapazito que acabei de conhecer. Já estou quase a chegar a casa e recebo uma chamada. Atendo e do outro lado a vez diz-me "já soubeste da Rute? cortou os pulsos!!" Nesse momento senti o chão fugir-me debaixo dos pés. eixei de conseguir ouvir o que se passava á minha volta e só o telefonema existia. Gritei adeus à minha afilhada enquanto me levantava apressada do banco para ainda sair na paragem de casa da Rute. O medo tinha tomado posse de mim.---> São 3 da manhã e estou aos saltos na cama da Rita a bater-lhe com almofadas. A brincadeira é eterna e a noite não pode acabar. A felicidade e alegria são mútuas.---> É uma da manhã e estou com a rita a fumar um cigarro às escondidas dos pais dela no terraço, no meio do escuro. Ainda ouvimos ao longe o som da musica dos carrinhos de choque e pensámos seriamente em fugir de casa por uma horas para irmos ter com o pessoal, mas de repente o som pára. Desistimos da ideia que nos parece agora ainda mais divertida do que no ínicio.----> Estou agora sentada na mesa do terraço ainda cheia de sono mas pronta para almoçar com a família da Rita. Esta chega também já toda produzida e á medida que se vai sentando na cadeira ao meu lado passa uma gaivota rasante que lhe caga certeiro na cabeça tão imaculadamente penteadinha. Toda a gente se ria e ela furiosa entrava de novo em casa directa á casa de banho.---> Estou agora sentada no chão frio do recreio da soares encostada ao muro e olho para o céu.Tenho os fones nos ouvidos e as músicas que passam trazem demasiadas coisas boas e más á minha memória. As lágrimas mostram-se então impossiveis de suster e mais uma vez a minha afilhada é a primeira a chegar á minha beira----> O vitor veio falar comigo, dizer-me que sonhou comigo...eu rio-me mas até me senti lisonjeada em boa verdade. Depois diz que eu lhe pareço abatida "o que tens pareces em baixo nos últimos tempos.?! qualquer coisa podes falar porque não acho nada bem que andes assim....". Precisava mesmo do abraço que se seguiu e das palavras que se soltaram sem serem esperadas.----> Estou numa casa de banho e o meu reflexo no espelho em frente mostra uma rapariga de cabelo molhado "Tens a certeza do que vais fazer?" dizia a voz da minha tia por trás de mim segurando uma tinta demasiado escura para alguém que quer brilhar. "É para mudar é para mudar!!" Soltou-se a minha resposta.---->Estou num quarto e sinto tudo a andar á roda, e ainda é pior quando tento fechar os olhos porque o som á minha volta amplifica-se cem vezes mais e o chão parece tremer, mas no fundo estou naquele momento a adorar tudo o que se passa.Sinto-me realmente feliz e descontraida. ---> Estou no cinema e já tenho a roupa toda suja de migalhas. Ao meu lado está a Cris. Na tela está a passar o filme dos thunderbirds e na sala não está mais ninguém para além de nós duas e uma velhinha que embora estivesse realmente escuro, lia um livro.----> Estou sentada num carro parado por causa da fila que se formou na zona do estádio do Dragão. Ao meu lado estava o Carlos cheio de impaciência para chegar à faculdade. Viu-me olhar par ele e sorriu-me divertidamente. Um olhar de repleto e inconsciente menino e o cabelo despenteado por baixo do não-usual boné.---> Eram cerca de 14:30 horas e estava em frente a um edificio que na janela dizia IPTA. Sentava-me no muro cinzento com o Carlos encostado ao meu lado enquanto esperávamos que o seu irmão saisse das aulas. O que se passou nos minutos seguintes eu própria decidi apagar da minha memória e portanto não vou registar algo que não me lembro, mas depois desses momentos a memória volta e estou eu na berma da estrada abraçada ao Carlos que com a força que me agarra parece não me querer deixar desfalecer, mas a sua t-shirt da nike já está suja de lágrimas negras pelo lápis dos olhos que eu tinha usado nessa manhã.---> Era uma sexta-feira de tarde e eu estou na ribeira abraçada ao Carlos de olhos fechados enquanto sinto o vento roçar a minha face e o meu cabelo. Já tinha saudades de o ver. Naquele momento percebi que mesmo depois de tão pouco tempo aquele tinha-se tornado o irmão que eu precisava para ter força para continuar a tentar ser feliz.----> São dez da noite e estou em cima de um palco no largo do souto. Ao meu lado está novamente o meu pianista preferido treinando e afinando o orgão para mais um concerto. Aqui as confidências tomam lugar e posição numa eternidade intemporal.--->Estou sentada num dos cestos do carrossel do gelo e tu estavas ao meu lado depois de muito tempo e insistência. Quando a libertadora e atribulada viagem começou passei a minha mão pela tua, mas no entanto não sentia qualquer correspondência pelo tacto gelado que me era transmitido.---->Dançava freneticamente em cima de um palco que se abanava todo ameaçando cair. Para mim estava era mal montado, mas nesse momento nem me preocupava com isso, na verdade até me passou pela cabeça ajudar na demolição com os meus saltos. Tinha cerca de 12 anos e muita energia na alma, nada comparado com agora.----> Dançava agarrada á Tânia e era já de noite. Dançavamos ao ritmo das batidas do círculo de fogo e sentia-me bem, realmente bem. O fogo parecia iluminar mais do que apenas a noite.---> Estava sentada num banco demasiado frio, mas era-me indiferente. Na minha frente estava um caixão aberto e rodeado de flores e lá dentro estava uma mulher a quem sempre vou chamar avó e segunda mãe. Não conseguia chorar como os restantes que estavam na sala e ainda não tinha percebido porquê..."Porquê??"--->Estou agora sentada novamente num carro mas desta vez este é do meu primo. Já é de noite e resolvemos sair um pouco para descontrair. Eu leveva já o cigarro aceso na boca e ele tentava chegar ao bolso com a mão que não segurava o volante mas não conseguia, por isso dirigiu-se a mim "segura no volante um coche" e largou o volante de repente. Eu fui de forma rápida e desastrada pela surpresa fazer o que ele disse enquanto ela manobrava os pedais e descontraidamente acendia o seu cigarro Camel. Era divertido ser irreverente na companhia de quem cresceu comigo.
Isto são apenas algumas das recordações que permanecem na minha memória e me enchem de certezas sobre a minha existência física e dúvidas sobre a minha predestinação. Amo-te maninho*_*

1 comentário:
olá
eu vi no teu fotolog o link e decidi passar por cá, por curiosidade :3 acho que tu escreves deliciosamente bem. expressas-te de uma forma que invejo e tratas das palavras com uma segurança que eu não tenho pois questiono sempre o que escrevo. foi bom vasculhar também, nas tuas recordações.
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