De manha o autocarro abana o meu corpo solenemente de um lado para o outro... sinto-me sonolenta. Ao sair pelas portas o frio rasga-me a alma, regela-me o peito e diz-me para acordar para a vida. Subo a rua de sempre, com a cara de sempre, nem a disposiçao muda. O meu dia na verdade so começa quando alcanço o topo dessa rua. Aí tudo á minha volta é factor para a mudança. O frio continua a romper a pele, sem dó. Cruzo a esquina e continuo a caminhar; não sei bem porquê mas todos os dias os meus olhos não se fixam num ponto, mas perscrutam tudo nas ruas, e todos os dias vejo algo novo. Ainda não me habituei á nova casa. Atravesso a rua, mas está vermelho; vejo o carro ao fundo...não vejo os olhos de quem vem do lado de lá do vidro, mas sei que não quer parar, bem... eu também não, estamos quites. Corta o espaço e passa à frente. A caminhada acaba em frente aos portões cinzentos enormes. Diz-se escola, mas é mais uma das poucas albergarias de freaks que eziste no mundo. E ainda bem que assim é. Ou não seria a casa.
O primeiro cigarro da manhã sabe tão bem como o nectar dos deuses... deixar de fumar? porquê afinal? estaria a tentar enganar-me a mim mesma? eu sou capaz de fazer tanta coisa, mas deixar assim, algo que já está tao incrustado na minha personalidade como se fosse as próprias unhas das minhas mãos...é ridiculo. Os olás repetem-se de formas diferentes... com entoações diferentes. Cada olá vem com algo mais por trás. Nunca ninguém se fica pelo simples cumprimento, apenas por boa educaçao. O dia começou há já varias horas mas são 8 e meia quando os meus olhos se abrem.
Ultimamente sinto comichões interiores que já nao sentia ha muito tempo. Ao contrario do que as comichoes costumam significar, para mim elas são sinal de quem se sente optima na pele que tem, e coça para perceber que tudo é tao real quanto parece. Após um ano de transformaçao, sinto-me alguem. A nostalgia de quem esta pronta para viver rompe no peito e o frio deixa de ser cortante; O calor de saber que o mundo é meu aquece-me o coração.
View from Afternoon High
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
sábado, 8 de novembro de 2008
Falta um ano.
Estou farta de não acabar um jantar sem uma discussão, da minha opinião não ser aceite e reconhecida, tudo por um jogo de interesses individuais. Tenho vontade de me afastar destas pessoas. Estas pessoas deram-me vida mas não me deram a vida. Estas pessoas nem parecem parte de mim. Cada um gira em torno do seu próprio ego e se eu lhes peço que não o façam, que parem e pensem, chama-me ingrata. De repente a deslocada sou eu, e não eles. Eu não sirvo, eu não encaix, eu não percebo. Então a ansiedade aumenta mais um pouco. Quero pegar nos pertences que me fazem mais falta, como as fotos e as recordações, pedaços daquilo que poderiam ser vidas, histórias e promessas, estivesse de viagem sem olhar para trás. Vou ter saudades tuas, e tuas, e tuas e dele e deles e dela e delas e de todos... os que sabem que eu vou ter saudades suas. Afinal nasci no porto, quero morrer no porto. Mas já não consigo viver no Porto. Preciso de acordar num sitio diferente, cheirar uma brisa diferente de manhã, preciso que nesse lugar até o calor e o frio sejam diferentes dos daqui. Preciso de um mundo completamente novo para respirar livremente tudo o que me espera e me sorri. Olho em frente e sóvejo felicidade apesar de tudo, estarei correcta? Olho para trás e sorrio, por tudo o que foi bom e desespero por deixar tudo o que é mau.
Esta é a primeira vez que escrevo ao fim de cerca de meio ano e não sei se estarei a fazer sentido mas a necessidade falou mais alto. Afinal, pôr em palavras o que nos escorre da alma é muito mais apaziguador do que guardar para dentro, sufocando a dor, espremendo a mágoa, tudo dentro do mesmo coração.
Quando era pequenina queria ser veterinária junto com a minha melhor amiga. Ela hoje está casada, e grávida do primeiro filho. Eu estou mais que solteira e minto a mim mesma se acho que já dei o que tinha a dar. Quero ir de chinelos nos pés, t-shirt e calções, mochila ás costas e câmara na mão. Tu vais estar comigo Fátima. Neste momento do meu percurso também desejo ligeiramente que venhas a poder estar comigo, ó tu, que és como eu, amor.
E no final de tudo, quando o mundo já tiver mostrado tudo de si, e só falte nós criarmos o que há-de haver para os que se seguem verem, aí sim... vamos acampar no meio de nada e fumar o nosso, a ver as estrelas que continuam a observar-me.
("I know someday i'll have a beautiful life." black- staind)
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